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contra jumento não há argumento



Quando pensei em escrever sobre as mazelas de Salvador, juro [mesmo] que acreditei que era capaz de mudar alguma coisa, de plantar uma semente de juízo ao denunciar, opinar, expressar descontentamento com as ocorrências da cidade. Mas me vejo cercada de estupidez, falta de caráter, falta de senso e querer. E contra isso não há argumentos. A meia dúzia de pessoas que foi atraída por este blog, veio por ter opiniões similares sobre muitos assuntos. A gente que tanto desprezo [desrespeitosa e desnecessária] não gastará seu tempo aqui. Se acidentalmente acontecer, a minha palavra não lhe exercerá poder algum. Infelizmente o mundo não é justo, e eu não sou deus.

Cansei. Tudo perde a graça.

O Brasil inteiro é considerado o país da piada. E isso não é engraçado. Desde a minha mais tenra infância os políticos são ridicularizados, e são os mesmos que ainda hoje estão no poder. Quanto mais a gente ri da piada que é o Brasil, mais o país se esforça para a piada ficar melhor. Os narizes vermelhos nos são distribuídos sem que sequer notemos. E continuamos a rir da cara dos políticos por anos e anos. E eles... ah... eles regozijam com os nossos sorrisos. Gargalham, porque sabem que são porcos que dominam os que se acham leões. Suas contas bancárias continuam a receber o nosso dinheiro, por mais alto que riamos, por mais adiante que repassemos o vídeo ridicularizador. Podem até ser cassados. Para eles são férias. Sempre voltam [eles fazem as leis]. Sempre. Primeiro, rindo baixinho, como se constrangidos... Depois, suas gargalhadas misturam-se às nossas... disfarçadamente, como se nos apoiassem até.

Esse processo de bestialização começa muito cedo: na família que se desestruturou, na escola que não evoluiu, na mídia que alimenta nossa inércia, construindo um país de estúpidos e inocentes, e, muitas vezes, não há diferença entre eles.

Eu desisto de tentar lutar para defender um país fadado ao fracasso, embora cheio de ilusões de grandeza. Desisto de ficar aqui falando das coisas erradas que vejo. Quem tem capacidade de ver, vê sozinho. Mas manterei a distância de segurança, como sempre fiz, daqueles que considero terem utilidade maior servindo de adubo para capim.

Obrigada pelas visitas e comentários aos meus posts, mas eu, amigos, bati:

- 1 2 3 SALVE EU!

Fronteira Invisível

Peguei um ônibus cheio, como de costume, e o único lugar que vagou foi exatamente nos preferenciais para idosos, gestantes, deficientes físicos e obesos [!]. Sentei. Nas outras 10 [!!!!] cadeiras preferenciais havia gente de todas as idades, incluindo dois idosos. Dois pontos depois, uma horda de velhos e uma moça gorducha adentraram o ônibus e foram se acomodando nos lugares que as pessoas cederam. A moça gorducha parou ao meu lado, porque uma amiga, idosa, ocupava também a cadeira. Atrás de mim, nas cadeiras já não preferenciais, havia duas mulheres de uns 40 anos. A moça gorducha era do tipo caminhoneira Shell e eu não tinha como saber por que razão ela entrou pela frente. Ela não era obesa, não era deficiente, não era velha e nem pagou a passagem.

Leva, motô!

Quando vagou um lugar mais a frente, a moça gorducha foi sentar. E aí começou a ladainha. As duas mulheres que estavam atrás de mim começaram a desfiar o rosário do desrespeito dos jovens com os mais velhos, da falta de educação, do absurdo, do “eu estava daqui só olhando pra ver se ela não ia levantar”, do “eu não sento nesses lugares e quando sento eu levanto” e toda essa história da gente super educada e altruísta de Salvador. Elas estavam na cadeira atrás de mim. Por que nenhuma das duas levantou? Por que, se são tão educadas e preocupadas com a saúde e cansaço dos velhotes, não cederam seus lugares? Por que a cortesia acaba após as vagas reservadas?

Morro de raiva, sim, quando estou cansada e tenho que levantar para velhotas que saem para saracotear de salto alto e não podem ficar 5 minutos de pé num ônibus. Gente que não paga, que pode pegar quantos ônibus vazios quiser para chegar ao seu destino, mas escolhe aquele que está mais apertado porque tem privilégios. Gente protegida pelo discurso do bom moralismo.

Mas ninguém tem dó da empregada doméstica que passa o dia inteiro esfregando panela, lavando roupa, cuidando de moleque mimado e tem que voltar em pé, com as pernas inchadas, cansada de verdade, e ainda ter de botar ordem em sua própria casa. Para elas, por exemplo, não há cortesia.

Acho absurdo que os ônibus tenham tantas cadeiras reservadas, que os shoppings, supermercados... tenham tantas vagas para idosos, como se todos andassem no mesmo lugar ao mesmo tempo. Mas isso é lei, né? E foram caras muito mais bacanas que eu que criaram, certo?

Vou ter que viver com isso... E as tias, tão polidas, vão ter que viver também com a minha falta de respeito e educação.


ps.: quem desejar, pode inserir palavras politicamente corretas onde for conveniente.

Pra Que Essa Pressa Toda?

Foi mais ou menos assim: eu estava caminhando pelo segundo piso do Salvador Shopping em direção à escada rolante em frente à Renner, pois eu queria ir ao Bompreço no andar de baixo. Na escada rolante ascendente, acabara de subir uma mocinha bonitinha de aproximadamente 17 anos, paty toda, de óculos escuros e coisa e tal. A amiga dela havia subido antes e eu já me aproximava da escada descendente. Pois essa criatura, assim que acabou de subir, ficou dando pequenos passos no mesmo lugar, chamando o nome da amiga. Dava um passo pra esquerda, outro pra trás, mais outro pra frente, depois para direita, e esquerda de novo, fazendo uma espécie de dança do quadrado desajeitada, criando, assim, um paredão móvel intransponível. Eu simplesmente não conseguia passar por ela! Foram longos segundos em que eu não conseguia andar, inacreditavelmente! Até que eu soltei um "TSC!" em alto volume, e ela se tocou. Foi surreal...

Eu sou um frequentador assíduo de shopping centers, confesso sem o menor pudor. Depois que o Salvador Shopping foi inaugurado, então, virei freguês. Vagas de estacionamento à vontade, cinema novinho e cheiroso, uma porrada de opções de alimentação e corredores espaçosos. Eu me satisfaço com pouco, e isso tudo, pra mim, já foi suficiente pra ter abandonado aquela lata de sardinha desprovida de vagas de estacionamento chamada Iguatemi.

Mas, ainda assim, mesmo com os corredores largos, eu não posso esquecer que continuo na cidade de Salvador, nesta terra de soteropolitaninhos pobres de educação doméstica e de senso de dimensões espaciais. Os soteropolitaninhos, em geral, tem um péssimo hábito de achar que todo mundo pode esperar um pouquinho só, que bobagem, não vai matar ninguém parar em fila dupla em frente a uma escola, não tem problema nenhum dirigir devagar procurando o endereço numa rua... Pra que se estressar quando um grupo de 10 pessoas para no meio de um corredor do shopping pra conversar, pra brincar com o neném no carrinho de bebê, ou pra decidir pra onde ir?

Em terra onde a falta de educação é regra, eu gostaria muito de ter a capacidade de ser rude e não ter um pingo de cerimônia para me transformar numa bola de boliche. O formato, pelo menos, eu já tenho...

Tem Convite?

Perguntei a Dona Atriz se ela foi ver a peça de Atorzinho, e ela me respondeu que estava enlouquecida com os ensaios de sua própria peça, com a produção, com as finanças, com a dor no ilíaco... e que, lamentavelmente, não deu. Dona Diretora até foi ver, porque Atorzinho havia sido seu aluno durante um ano na faculdade de Artes Cênicas. E como Atorzinho estava sendo muito elogiado, Dona Diretora queria mostrar que havia feito um ótimo trabalho, mesmo que sua matéria tenha sido levemente irrelevante para a formação teatral de Atorzinho. Dona Diretora, após ter seu nome ignorado nos agradecimentos de Atorzinho, percebeu um monte de defeitos técnicos imperdoáveis... tão primitivos... e deixou escapar a opinião para seu amigo Jornalista.

Eu não gosto de teatro, dá licença? Não me sinto menos culta ou menos bacana por isso. Só vou ao teatro se tenho alguma relação de amizade com elenco, produção... e nunca paguei por um ingresso. Vejo que isso é recorrente também da classe artística. Reclama-se do teatro vazio, do dinheiro pouco mas, quando se fala da estreia de uma peça ou show na cidade, o burburinho na panelinha começa em busca de convites. Quanto mais amigos produtores etc. se tem, mais chances de charlar gratuitamente.

Por algumas vezes fiquei encarregada de convites para um evento, e vi bem como isso funciona. Em minutos ganhava amigos de infância, sorrisos, referências... Dias depois, voltava a ser invisível. Muitas das pessoas eu conhecia por algum amigo em comum... Não importa se o ingresso custa R$ 5,00 ou R$250,00. Bacana é ser VIP. Bacana é entrar sem pagar.

Entrar sem pagar mostra que você é influente. E se você é influente talvez possa dar algo em retribuição: um outro convite, uma indicação, uma nota no jornal, uma apresentação formal àquele outro influente, um comentário no seu blog badalado... É um tanto de bajulação e outro tanto de troca.

Toda classe artística quer ver casa cheia e quer um troquinho da bilheteria. Mas, pagar pelo ingresso não é a regra, assim como prestigiar o trabalho do colega, com quem não se tem relação alguma de interesse ou amizade, é raro.

Metástase da Insegurança Pública


Em 2001, por alguma razão que não lembro qual, a única maneira de efetuar a inscrição para o vestibular da Cairu era indo pessoalmente à sede da Consultec, na Barra. Era uma tarde de chuva, e a cidade estava, já há algumas semanas, em estado de pânico por causa da greve dos Policiais Militares. Mas eu, nos meus tenros 23 anos, ainda não era o cagaço em forma de gente que sou hoje. Só havia sofrido um único assalto até então, sem maiores prejuízos, pois tive a coragem/demência de esconder o celular atrás da gola da jaqueta. Não seria justo que um facínora qualquer levasse meu aparelho Ericsson (que um dia não teve "Sony" na frente) da então Maxitel, "pioneira" em telefonia celular digital.

Bom, o fato é que mesmo com a cidade naquele estado, literalmente uma terra sem lei, eu não me abstive de andar pela cidade para fazer o que tinha que fazer. Logicamente, eu não era louco de sair às 2 da manhã de casa, mas a sensação de insegurança não havia se feito sentir tanto em mim. Semanas depois, o Exército tomou conta das ruas da cidade e cruzar a avenida Paralela com um caveirão verde musgo era comum naqueles dias. E assim, minha sensação de insegurança, que já nem era tamanha, desapareceu. E pouco tempo depois, a greve da PM chegou ao fim.

Engraçado é que, no início daquela greve, a ficha das pessoas demorou a cair. A greve já havia sido deflagrada há mais de uma semana, e ninguém parecia se importar com aquilo. Os pontos de ônibus continuavam cheios e os estabelecimentos comerciais funcionavam normalmente. Até que, numa sexta-feira à tarde, os arrastões começaram a ocorrer em shoppings, estações de ônibus e diversos outros pontos da cidade, e o terror generalizado se instalou.

Salvador sofreu muitos danos com a greve da PM, além de ter ficado um medo silencioso nos cidadãos soteropolitanos, aquele tipo de receio constante que permanece no inconsciente coletivo, de que tal situação possa voltar a acontecer, como o governo confiscar as poupanças novamente, por exemplo. Falar na simples possibilidade de uma nova greve da PM faz gelar a espinha de qualquer um. E hoje, 06 de agosto de 2009, muitas espinhas gelaram. Os policiais tiveram uma assembléia e optaram por amedrontar a massa com algo que chamaram de "operação padrão". Ou seja, se a constituição proibe que militares se sindicalizem e que façam greve, então decidiram pegar outro caminho no labirinto legislativo... Assim como greve é proibida, trabalhar em condições precárias também é.

Analisando pelo ponto de vista dos Policiais Militares, é inegável constatar que as condições insalubres de trabalho deles realmente desmotiva qualquer exercício da atividade. Segurança pública é um item fundamental para a manutenção do bem estar social, tanto quanto saúde e educação, todos sabem disso. Ninguém ainda conseguiu dar uma explicação razoável para o fato de que a parte do orçamento público destinada à segurança seja tão pequena. Por que Brasília, uma cidade tão minúscula, tem policiais militares remunerados com 4 mil reais por mês e aqui em Salvador, eles ganham 1,7 mil? Por que apenas 15% dos coletes à prova de bala à disposição dos PM daqui estão em condições de uso? Por que eles não receberam treinamento adequado para utilizar veículos em operações especiais?

Por que é tão difícil perceber que Salvador está caminhando rapidamente para o buraco da insegurança generalizada? Em novembro do ano passado, eu fui assaltado duas vezes. Twice in a single month! E numa dessas vezes, eu estava dentro do elevador do prédio em que eu trabalho. E aí, quando eu fico com medo de ir a lugares como cinema do Aeroclube ou Pelourinho, algumas pessoas não entendem e acham que eu estou exagerando. Há um elemento psicológico muito forte, eu admito, pois nunca se está seguro de verdade em lugar nenhum. Mas a sensação de segurança não depende só do que se percebe lucidamente. Ao menos, não após ter sofrido dois assaltos em menos de trinta dias.

Caso aconteça mais uma greve da PM em Salvador, eu queria apenas que todo mundo entendesse que não será uma surpresa. Assim como não pode ser uma surpresa pra alguém que fume 20 cigarros por dia, ser diagnosticado com câncer de pulmão. A insegurança pública em Salvador é um carcinoma maligno que está em metástase há muito tempo. Só que, assim como o fumante não deixa de tragar seus venenos fumegantes, o governo baiano vai continuar enxergando a importância de se ter uma Polícia MIlitar bem equipada e bem remunerada, com a mesma insignificância habitual.

Linha Amarela


Hoje eu estava passando pela UNIFACS (Universidade Faculdades Salvador) do Caminho das Árvores e tinham duas viaturas da Transalvador, aparentemente, multando os carros que estavam estacionados ao longo de uma linha amarela, que fica numa rua, onde existe uma placa de aproximadamente 60cm X 45cm em sua entrada. Na referida placa (novinha por sinal) tem o símbolo de Proibido Parar e Estacionar, e abaixo do símbolo tem escrito: “Ao longo da linha amarela.”



Eram poucos os lugares ao longo da linha amarela que não estavam ocupados por carros... Se esses motoristas não têm capacidade de interpretar uma das placas de transito mais básicas, como conseguem habilitação para dirigir?

Pra quem foi multado lá perto da UNIFACS hoje, só tenho uma coisa a dizer:

“Tomou?” (GAMBÁ, 1996)

Parabéns Transalvador!

A Bahia de Caymmi, de Jorge Amado, de Caetano, de Gil, de Carybé...

Ou o título que nada tem a ver com o texto...

O blog mal começou e já estou em crise para escrever. Penso no sentido de reclamar, de divulgar minhas insatisfações aqui, quando o tema que escolhemos para discutir não é do tipo agregador. E quem se importa com as minhas insatisfações? “Os incomodados que se mudem” sempre foi a regra, pronunciada cheia de desdém e autoridade, desde as mais remotas lembranças. E tentar viver perto das oportunidades de trabalho, cultura, lazer, crescimento é o que ocorre tão logo muitos terminam a escola ou a faculdade: incomodados, se mudam.


Nunca pensei em outra cidade ou país que eu conseguisse morar. Não porque sou bairrista e amo meu país, minha cidade, minha gente. Mas por mero comodismo, por familiaridade com o espaço, com as leis [não esquecendo a falta de dinheiro]. Não sou do tipo popular, não sou imprescindível nos eventos, muito menos gosto do que se considera diversão em Salvador. Tenho poucos amigos, alguns deles encontro menos do que gostaria. Mas, a falta dos amigos poderia ser amenizada pela internet.

Acho bacana quem tem essa coragem de sair. Mas não entendo, por exemplo, por que o dinheiro dignifica o tipo de trabalho que se faz. Aqui, quem possui um diploma acha humilhante trabalhar como balconista, telemarketing..., porque investiu muito no conhecimento para submeter-se a um emprego "menor”. E para onde vai esse conhecimento quando se muda de cidade ou país? Que valor ele passa a ter quando o salário é bom e o trabalho é ruim? Às vezes penso que é simplesmente por estar longe do julgamento dos conhecidos, dos desafetos, que qualquer coisa vale a pena. Qualquer coisa para pagar as contas e patrocinar o sonho de viver na civilização. Os mais sortudos e/ou capazes conseguem trabalhar em sua própria área e, quiçá, estabelecer-se como um igual.

Há aqueles que relembram, ao comentar com os amigos, “aquela energia positiva, aquele calor, aquela alegria que o povo de Salvador tem”... E bate uma saudade... uma vontade de comer um acarajé da Cira [já que Dinha morreu], de ver o pôr do sol no Porto da Barra [clap clap clap], do sorvete da Ribeira... Sempre há uma boa desculpa para fazer voltar para casa os que “fracassaram” e garantir ao menos uma vista dos que se deram bem.